sexta-feira, 13 de abril de 2018

O sorriso do homem sem olhos

Mudança, dizem, em todos os sentidos faz bem. Acho que, timidamente, acredito nisso... Há algum tempo, em um momento estranho da vida, em que pressentia coisas positivas me rondando, a conspiração da engrenagem que gira o mundo me fez mudar de casa. Em uma madrugada, depois de algumas cervejas, buscando, no escuro, as fechaduras da nova casa, entrei em um beco que me conduziria a toda sorte de experiências. Ao atravessar aquele corredor escuro, fui recepcionado pelo príncipe Míchkin de Dostoievski, pelo Harry de Hermann Hesse e, irônico, amaldiçoei todos eles. Mesmo assim, com um olhar convicto e romântico, pude perceber  a lua, com um rosto suave e iluminado, alheio aos acontecimentos do “mover do mundo”, me olhando, enquanto era festejada pelo bailado das estrelas à sua volta. Voltando ao lado escuro, pensei:  

Sempre gostei da simplicidade nas pessoas. Em minha opinião a simplicidade soma desapego e autenticidade, embasada por ingenuidade e leveza. Gosto do silêncio e, até mesmo, da insegurança. Às vezes penso que a insegurança nos torna mais prudentes e respeitosos.

Foi assim que, observando o comportamento das pessoas, “in loco”, conheci os costumes pelas madrugadas, nas praças e ruas de Belo Horizonte. Vi alguns “perdidos” em bares abertos até o arder dos olhos, pela manhã, e casais que povoam a Praça da Liberdade em longas noites e que alimentam suas inquietações com incontáveis garrafas de cerveja. Vi de tudo...
Depois de longos dias, noites e buscas, concluí que chegara a hora de atravessar aquele corredor escuro, em sentido contrário. Pensei... Pensei? Não.

Olhei para trás e vi algo bom emanando daquela escuridão. Era o coro formado por amigos (conhecidos e desconhecidos) sugando de dentro de mim uma voz calma e resignada, vinda lá da região desconhecida do pensamento. Todos apontando para um trono situado na simplicidade, na escuridão e na solidão que me vigiava. Sentado nesse trono, um homem idoso com rosto de criança. Sorri e prossegui a travessia. O coro, em vigília, voltado para o trono, cantava uma linda melodia. Antes de girar a chave que selaria minha estada naquele “pedacinho de mundo” de minha existência, voltando meu olhar para o passado recente, olhei para o homem com cara de criança. Ele, sorrindo um sorriso terno e sábio, acenava para mim. Não tinha olhos. Vi, no buraco de seus olhos, a vida passando... Meus lábios foram tomados pelas belas palavras do sábio de Atenas:

“Quanta gentileza há nesse homem. Durante toda a minha estada aqui, ele vinha procurar-me, conversando mais vezes comigo. Em duas palavras: uma excelente pessoa. E, hoje, que generosidade demonstrou no modo como lamentava a minha sorte! Pois bem, vamos! Obedeçamos-lhe... E que me tragam  o veneno, se ele já estiver moído: se não estiver, que o encarregado isso o faça”*. Revitalizado, fui em frente. Mudei-me de casa.

Texto da série “Impressões".
* Sócrates em Fédon (Platão).


terça-feira, 3 de abril de 2018

Birdman

Voar tornou-se símbolo de liberdade. Da busca do desprendimento das amarras da vida. Mas é na solidão de uma cela, morada de um condenado à prisão perpétua, que um filhote de pardal encontrará o cuidado necessário para crescer longe de seu ninho, longe de sua espécie, dando início a um período de paz interior, justamente quando o detento se envolve e se preocupa com o dia a dia dessa ave solitária. Isso dá sequência a uma história fantástica sobre o cuidado e a leveza, necessários para lidar com pássaros tão frágeis e delicados.  Sentimentos que contagiam o coração. Ali, onde o termo “liberdade” não produz os efeitos práticos, resta somente a libertação da alma. A aceitação das limitações da vida vivida em cativeiro. Justamente com pássaros. Estou falando do filme “Birdman of Alcatraz”.*

Não sabemos o que nos espera após a morte... Moldamos, ao longo da vida, o que pensamos ser o melhor e, baseados nos preceitos familiares e na convivência social, fazemos opções assumindo as consequências possibilitadas pelo exercício do livre arbítrio.
Imaginem se após a morte, fôssemos recebidos por um grupo incumbido de criar o filme de um momento de nossa vida, que nos tenha marcado profundamente! Essa lembrança seria o que levaríamos para a eternidade. Somente uma lembrança... Nesse momento, qual seria a lembrança de um acontecimento importante em sua trajetória nesse mundo, que seria o filme de sua vida para a eternidade? Estou falando do filme “Depois da vida”.**

Andando por uma rua deserta, à noite, observava a solidão dos edifícios, com suas poucas luzes acesas, imaginando os acontecimentos  simultâneos que contribuem para o que chamamos de viver. Alegrias, tristezas, realizações, dores... Tudo acontecendo simultaneamente e girando a roda que movimenta o mundo. Repentinamente, gritos atravessam a noite interrompendo a monotonia e o romantismo de uma chuvinha fina. Duas pessoas discutem com ferocidade. Embaixo de uma marquise, uma velha senhora de aproximadamente trinta e poucos anos, vociferando com palavrões e muita ira, exige que um rapaz saia de seu espaço argumentando que, à noite, aquele lugar é a sua casa. Ela exige que respeitem o seu lar de todas as noites. A briga é muito assustadora e a senhora sai vencedora. O invasor desiste. Sai em busca de outro lugar.

Estou falando, lamentavelmente, do filme real da vida. O espectador era eu mesmo. Descia a Rua Gávea no bairro Jardim América, em Belo Horizonte, após um dia de gravações. Quisera ser, naquela hora, o herói de um filme que salva os pássaros de dentro de sua morada eterna nesse mundo. Teria uma bela lembrança para o filme de minha vida...

*John Frankenheimer
**Hirokazu Kore-eda



terça-feira, 27 de março de 2018

Contrários

- Não são do bem nem do mal. São facções opostas.

Foi assim que meu filho respondeu à minha pergunta sobre os personagens de um joguinho eletrônico. Após dizer-lhe que a resposta era sábia, sem que ele desse qualquer  importância à minha opinião, seguimos jogando. Ou melhor, ele jogando e eu o observando. Sou péssimo nesse item.

Hoje, após abrir os olhos pela manhã, lembrei-me de nossa conversa. Depois de perambular por muitas hipóteses em busca de compreensão desse mundo estranho, onde amigos se digladiam e acreditam em opiniões (verdades)  apresentadas pela via escrita, justificando agressões nomeadas de “discussão saudável e necessária”, finalmente me veio a revelação que eu buscava. Já suspeitava, mas dita de forma metafórica, tendo como roteiro elipses da vida, fica tudo mais simples. Ditas com naturalidade, por uma criança, dando a devida importância: posicionamento.

Em minha mente desfilaram várias frases que presenciei, li ou ouvi ao longo da vida e que são atribuídas, nesse mar de insegurança e mediocridade filosófica que configura  a internet, a qualquer autor... Vladimir Horowitz me diz sobre a crítica na música: “Trata-se apenas de uma opinião. Opinião todos têm...”. Nietzsche proclama: "Eu jamais iria para a fogueira por uma opinião minha, afinal, não tenho certeza alguma. Porém, eu iria pelo direito de ter e mudar de opinião, quantas vezes eu quisesse”...


Em meio ao turbilhão que invade minha mente e meus olhos nesse lamaçal de opiniões, penso na realidade da vida. Às vezes dura. Não para mim. Acho que sou privilegiado por poder fazer música, escrever, sonhar... Mas para alguns que vagam pela cidade sem uma rota estabelecida. Que se reúnem, às vezes, para uma comemoração inusitada e, tal qual em um encontro marcado, festejam o nada.

Hoje, em frente à Biblioteca Pública, na Praça da Liberdade, enquanto caminhava com meu filho depois de visitar alguns museus, vi uma cena curiosa. De um lado um feliz encontro de personalidades da literatura, que nos ensinaram muito sobre a vida e o respeito à cidadania. Ali reunidos, Fernando Sabino, Otto Lara Resende, Hélio Pellegrino e Paulo Mendes Campo pareciam, em conversa animada, discutir sobre a educação, a cultura, a poesia... Talvez sobre o jazz e a vida.

Do outro lado, alheios ao bate papo dos mestres, alguns moradores de rua cumpriam sua sina de nômades. Enquanto um dormia, outros preparavam, em uma cozinha improvisada com fornalha e utensílios gastos, algum tipo de alimento. A conversa era monossilábica. Pareceu-me que recebiam visitas, pois uma mulher chamava um dos presentes, dizendo que já estava na hora de irem embora.
Meu filho me perguntou se moravam lá... Olhei-o, pensei e disse:

- Hoje sim. Amanhã talvez em outro ponto da cidade. São errantes que sofrem com o desprezo de políticos que não compreendem que o bem estar das pessoas é a maior  obra da vida,  capaz de transformar culturas e melhorar o mundo. Ele olhou-me e disse de forma curiosa:

- Eles não têm casa?

Disse-lhe que ainda não. Mas que o mundo ia mudar e as pessoas de boa fé, (para mim, verdadeiros representantes do Brasil de Darci Ribeiro e tantos outros), viveriam bem e teriam paz em seus lares com suas famílias, independente de serem menos privilegiadas. Sem fome, com escola, saúde, emprego... Seguimos. Ele lamentando a distância do carro. Eu pensando com certo amargor: em breve teremos eleições. Será o momento de exercitarmos nossa cidadania e democracia escolhendo bem nossos representantes.

Olhei ainda para trás e vi uma cena bonita. Um dos moradores de rua apoiava seu braço nos ombros de Fernando Sabino e falava algo que eu não podia ouvir. Talvez celebrasse o “Encontro Marcado” com o respeito ao ser humano. Sorriam.

segunda-feira, 19 de março de 2018

A viagem...

“Ao lidar com malucos, o melhor é fingir que somos sãos.” – Hermann Hesse

Tomei um táxi com um amigo violonista e conversamos durante todo o trajeto sobre música. Ao deixarmos esse amigo, próximo à Avenida Amazonas, o motorista me disse que ouvira nosso assunto sobre música e que queria me aconselhar a tomar muito cuidado com as drogas. Segundo ele, os músicos gostam muito de drogas e bebidas. Que a bebida é ainda pior, pois destrói famílias e mata, aos poucos, aquele que se entrega ao vício. Disse também que a música que não tem como objetivo a adoração e a celebração de Deus é algo perigoso. O rock então... (Palavras dele).

Lembrei-me do Heavy, do Metal e em meu íntimo, sorri divertido e pensei: tenho pena de alguns amigos meus. Queimarão no fogo do inferno eternamente. Estão perdidos.

Seguindo a “viagem” ele me deu uma aula sobre a bíblia e os mandamentos, sem me deixar falar. Observei-o um pouco, enquanto falava, e senti que tinha ao meu lado um homem bom. Crente e sincero. Que acreditava profundamente no que dizia. Ou melhor, vivia intensamente tudo que acreditava.

Chegando ao destino, estacionou e desligou o carro. Após receber pela corrida e me dar o troco, falou durante mais algum tempo. Sempre sozinho, sem me olhar nos olhos nem me deixar despedir ou argumentar. Contou-me que fora alcóolatra e que durante muitos anos tentara tocar um instrumento. Que Deus o havia colocado no caminho certo. Percebi que ele olhava para o “nada”. 

Interrompi-o finalmente e, agradecendo, desci de seu carro. Ele me chamou e me deu um papel como aqueles antigos “Santinhos”, e disse:

- Cuidado...

Novamente agradeci e segui em frente. Hoje, meses após esse episódio, encontrei em minha bolsa esse papelzinho, onde pude ler: “E procurai a paz da cidade, para onde vos fiz transportar em cativeiro, e orai por ela ao Senhor; porque na sua paz vós tereis paz”. Jeremias 29:7No verso do cartão havia uma foto e os escritos: Confie em Deus. Vote (?) para Deputado Federal.


O amigo que não pôde desfrutar da conversa (?) é o violonista Lucas Telles.

quarta-feira, 14 de março de 2018

Belarmina

Curvas perigosas pela frente. Olhar atento. Mãos ansiosas se alternando entre marchas fortes e toques sutis buscando, ora os cabelos, ora outras mãos distraídas, esperançosas e solícitas… Carentes de afago. A tarde linda e embaçada, prenunciando uma noite de estrelas com um ar fresco, quase frio. À frente, uma lua cheia, prateada, preguiçosamente se impondo. Uma música suave embalando os sonhos e acariciando os ouvidos.

Olhos mirando belezas naturais e subjetivas, enquanto o tato comprova o calor que brota das mãos e de todos os poros. Um suave perfume dos cabelos se confrontando com uma fragrância que emana da natureza. Renovada, nessa tarde, no movimento cíclico da vida. Somente a boca ansiando por exercer seu sentido nessa hora. Em vão…

O carro avançando, a noite adentrando e o milagre da hora misteriosa se revelando no crepúsculo. Tanta beleza levando alguns dos viajantes ao sono. Sono leve, breve. Um transe diante do prazer que as coisas simples nos trazem.

Algumas curvas à frente, já viajando em terras quase planas, e chegamos ao destino. Um lugar simples, onde tudo demonstra requinte e bom gosto. Rodeado por natureza e montanhas, mesas portando toalhas com estampas alegres nos aguardando. De longe uma vaquinha com seu olhar lânguido, nos observa. Talvez indagando o que acontecerá nessa noite, para ela, tão agitada. Enquanto a luz se extingue, nos permitindo ver somente silhuetas das colinas em volta, carros estacionam trazendo, para minha surpresa, pessoas amigas, queridas. Como se houvéssemos combinado um grande encontro. Eu não esperava… A felicidade redobrada, regada por cervejas geladas, nos deixando, aos poucos, certos da possibilidade da existência do  bem nas coisas simples. Desconstruindo conceitos grandiosos de busca do “bem estar”.

Brindando a noite, um “cantador dos bem adiferente”, empunhando seu violão, canta para a lua com seu manto de estrelas, inundando os corações com seu brilho. Traz notícias de uma gente que vem de longe, de terras lusitanas. Fala de plantações de estrelas e de amores vividos a dois. E a noite avançando. E as vozes cantando alegrias em preces eternas. E a prosa rendendo. E a amizade e os sorrisos se multiplicando. Corações palpitantes e lamentosos. Chegará a hora da Travessia… Há outros tempos, outras vidas para viver e sonhar. E o coração em dúvida eterna. E a noite esfriando e os olhos se fechando…

Entre abraços, sorrisos e beijos, cada um seguindo seu caminho. Indo não se sabe para onde, levando apenas a lembrança de um momento bom. De vida. Na alma, o medo de perder essa lembrança e uma súplica à mãe de todos: “Ora pro nobis peccatoribus, Nunc et in hora mortis nostrae”. Olhos cansados e luminosos, ainda roubo um beijo bem roubado… Beijo simples. Infantil. Depois de muitas tentativas e negativas.

Noite adentro, um carro avança em uma estrada solitária, rumo ao princípio do mundo…

sábado, 10 de março de 2018

Libertango - Numa noite em Buenos Aires

Da platéia eu observo as luzes, o mover das cortinas e o movimento dos técnicos e iluminadores. Um garçom desatento, porém simpático, me entrega o cardápio. Como sempre, peço cerveja… Nacional. Escurece o cenário, mas minha vista perspicaz percebe mulheres belíssimas, com pouca roupa e muita sensualidade, surgindo no palco.

Tango…

Como são belos e misteriosos os movimentos sensuais de delicadas dançarinas e os passos virtuosos, treinados nas pernas, no sentir e no olhar de seus pares. Meu Deus! Coreografias audaciosas desafiando meus sentidos, exibindo um virtuosismo distante, em um palco a dois metros de minha mesa… Meu Deus! Como são belos seus movimentos, seus corpos, sorrisos…

Noite adentro sem nenhum receio da madrugada. Vale um olhar, um sorriso disfarçado ou incompreendido. Desatento. E o mundo seguindo. E eu ficando... O coração batendo forte e uma lembrança de amores sonhados, conquistados e vividos: “El dia que mi quieras…”. E se essa noite se acabar? E se o sonho despertar? Mãos aquecidas e beijos molhados... A vida saberá lidar com isso.

Aplausos quentes… Pessoas se ausentando, sonhos se esfumando. Eu, olhando para o palco.

Dançarinos voltando à realidade do sonho da vida, no trajar natural do dia a dia. Eu lá, com as mãos aquecidas, beijos quentes, cervejas… E olhos negros me mostrando os caminhos. Eu, lá.

Era uma noite em Buenos Aires.




quarta-feira, 7 de março de 2018

Como deve ser

Levantei e me dirigi à janela de meu quarto, como sempre. A manhã bonita me trazia um ar suave e fresco. Quase frio. Olhando a rua, percebi duas moças conversando ao lado de seus carros estacionados na contramão. Pensei comigo: será que o mundo amanheceu ao contrário? Ri desse pensamento inusitado e resolvi seguir em frente. Acreditar que o mundo mudara de direção. Isso me divertia…
Um senhor, seguindo seu hábito diário, descia a rua com seu buldogue. Apanhava, cuidadosamente, toda a sujeira deixada na calçada pelo seu cão. Usava luvas de plástico e trazia, pendurado no ombro, uma sacolinha de lixo. Meneou sua cabeça ao passar pelas moças e, sorridente, seguiu seu caminho. O porteiro de meu prédio, com voz baixa e sutileza insuspeitada assentiu com aprovação dizendo com voz delicada: – Muito amável.
Depois de um breve café da manhã, me dirigi ao supermercado. Após as compras fui atendido, no caixa,  por uma jovem muito atenciosa e sorridente. Ao me apresentar a conta, olhando-me nos olhos, ela perguntou sobre a forma de pagamento: dinheiro, cartão de crédito, débito… Optei pelo débito e fui atendido prontamente. Terminado o acerto ela, calmamente, me ajudou com as sacolas e me desejou um ótimo dia.
Ao atravessar a rua em direção ao meu carro, observei um motoqueiro parado na esquina com atitude solícita, acenando para uma velha senhora que parecia levar seu netinho à escola. Estranhei muito a falta de pessoas pobres na rua também. Isso me animou ainda mais. Experimentava, naquele instante, um sentimento de bem estar, interrompido somente pela estranheza do silêncio nas ruas. Não ouvia buzinas de automóveis, mesmo havendo certo engarrafamento no trânsito. Percebi a possibilidade de um mundo melhor e mais calmo, surgindo nesse dia, diante da gentileza das pessoas.
Voltando para casa, próximo de uma escola, um guarda de trânsito acenou para que os carros parassem, dando passagem para algumas crianças acompanhadas pelos professores. Dois carros à minha frente pararam, seguidos por mim. Eu observava aquelas crianças atravessando a rua em algazarra, brincando e formando pequenos grupos. Despertei do transe ouvindo o barulho dos pneus de um carro sendo freado bruscamente. Fui lançado no canteiro central da avenida, tendo meu carro dilacerado do lado direito.
Policiais saíram da viatura que havia atingido meu carro e um deles, talvez o superior, perguntou-me se estava tudo bem. Foi logo se desculpando e explicando que seu colega que dirigia a Rádio Patrulha, sentira-se mal, motivo que o levou ao acidente. Educadamente, todos os policiais me ajudaram a sair do carro. Em poucos segundos havia vários carros de polícia dos dois lados da avenida. Depois de recomposto, diante de vários pedidos de desculpas, tomei um táxi e segui para minha casa, enquanto meu automóvel era levado por um guincho para uma oficina. Mesmo em meio àquela confusão, sentia-me tranquilo. Estava bem e fora muito bem tratado pelos policiais.
Chegando à entrada de meu prédio pude ainda observar as duas moças com seus carros parados em sentido contrário, se despedindo. Manobraram e inverteram a posição, assumindo o sentido permitido nessa rua de pouco tráfego. Chegando ao meu apartamento, dirigi-me à janela de meu quarto. Não as vi mais. O interfone tocou e pude ouvir o porteiro me avisando da chegada de uma encomenda pelos correios. Ouvia sua voz vindo da janela, mais que do interfone… Lembrei-me de uma frase de uma pessoa amada: “-  Tudo está como deve ser”.
*Para compreender melhor o conteúdo, releia o texto imaginando tudo ao contrário, exceto a cena que deu origem à narrativa e o acidente de automóvel.

quinta-feira, 1 de março de 2018

Lá fora...

"As coisas assim a gente não perde nem abarca. Cabem é no brilho da noite. Aragem do sagrado. Absolutas estrelas".*

Saí lá fora e caminhei lentamente, a esmo. As damas da noite me assediando e me envolvendo. Olhei-me nos olhos e refleti, no espelho de  minha alma, o sentido de tudo em movimento. Na mistura de circunstâncias que é a vida, fui ingênuo, romântico... Talvez dramático também. 

Lentamente, evaporou de minha mente todas as tristezas,  males e frustrações que sombreavam meus dias. Tudo junto, me abandonando. O ar quente da noite, se tornando fresco. Incompreensão se convertendo em compreensão. Cegos enxergando e aleijados correndo felizes pelas ruas. Portas se abriram e, delas, os mortos ressurgiram. Com um grande salto comecei a voar. Enquanto isso, meus cabelos ondulavam sob uma leve brisa e as damas da noite, inquietas, me afagando o coração.

Abri os olhos e virei-me para a janela semiaberta. Um vento suave inundava a madrugada daquele quarto. Virei-me e aguardei novamente o sonho. Não veio...

*João Guimarães Rosa


segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

Meus analistas, os cabeleireiros

Há alguns anos atrás, eu cortava os cabelos com um profissional muito competente, com características pessoais muito peculiares e engraçadas. Ao saber que eu era músico, ele me disse que gostava muito de música e sonhava poder tocar um instrumento. Por isso, o diálogo, a cada ida minha ao salão, se estendia por longo tempo. Um corte de cabelo durava, em média, duas horas.

Pessoa muito simpática ele me contou sobre sua vida difícil e como fora criado sem a presença de seu pai. Tornou-se um amigo. 

Muito inquieto e vaidoso, ele, enquanto cumpria seu ofício de cabeleireiro, aos poucos, ia se descobrindo no espelho. No ápice de sua descoberta, se encantava com sua própria imagem e, ao se admirar, esquecia-se de sua função, ajeitava os próprios cabelos e sorria um sorriso cinematográfico. Quando ele percebia sua atitude, olhava para mim como se houvesse sido descoberto em grave delito e dava um gritinho agudo, voltando para sua tarefa. Mudei-me de região e nunca mais o vi.

Morando em outro bairro tive que me adaptar a um novo cabeleireiro. Esse, competente e famoso, me agradava muito pela sua técnica. Mais uma vez, o que me chamou a atenção foi sua postura profissional. Sempre gostei de profissionais que se respeitam e se valorizam sem prejuízo da personalidade ou excesso de egocentrismo para os que estão à sua volta. Este, um verdadeiro artista, se portava como tal. 

A primeira vez que entrei em seu salão foi algo fantástico, que me lembro com muito gosto. Fui recebido por um jovem recepcionista muito simpático e delicado, que me conduziu a uma outra sala, onde um rapaz me aguardava. 

Este, por sua vez, me indicou um acento dizendo que iria lavar meus cabelos. Durante alguns minutos ele acariciou meus cabelos com um shampoo muito cheiroso. Em alguns momentos, achei que ele, com malícia, abusava um pouco da massagem na região da nuca. Isso me fazia arrepiar e ele olhava ensimesmado e sorria um sorriso matreiro, vaidoso e inquiridor. Houve um momento em que ele, malicioso, quase riu. Percebi em seu semblante, pelo espelho em frente, um conflito entre o riso e boca. Um se opondo ao outro, como se lutassem para obedecer ou desobedecer seu dono. O que se ouviu foi um grasnado fino, sofrido e contido, que o desconcertou fazendo seu rosto enrubescer. Após todo esse processo ele me conduziu à sala onde seria feito o corte do cabelo. Pensei que ele era o cabeleireiro… Mas não. Pediu-me para aguardar. Que em breve eu seria atendido. Fechando uma espécie de cortina que separava o ambiente, deixou-me em uma semiescuridão.

Fiquei ali esperando e imaginando o que me aguardava… Depois de alguns minutos, com certa violência, alguém puxou a cortina e entrou. A cena foi tão inesperada e imprevisível que quase aplaudi a entrada do cabeleireiro. Como num abrir das cortinas no teatro.
 
Sem se apresentar ou me olhar nos olhos, o cabeleireiro fazia tilintar as tesouras no ar, enquanto sugeria como deveria ser o corte. Não como eu gostaria que fosse. Me perguntava frequentemente: 
              
      - Fashion… Que tal?

Enquanto cortava meus cabelos, envaidecido, com breves olhadelas no espelho, dava um sorriso e me falava de Paris, à qual ele se referia em francês. Me lembrei do filme “Paris Texas” de Win Wenders e do Japão, um lugarejo, acho que situado a oeste de Minas Gerais. Em silêncio ri maliciosamente.

Frequentei durante muitos anos seu salão. Com o tempo ele começou a me falar de coisas simples, de sua infância e, aos poucos, abandonou as inserções do francês em suas frases de efeito. Ele viveu, como todos nós, em um tempo de mais proximidade com as pessoas, onde todos se comunicavam com frequência e eram responsáveis por seus vizinhos, familiares e colegas de escola… Aos poucos descobri um homem frustrado com a vida, com as projeções que fizera para o seu próprio futuro. Gostava muito de conversar sobre música e, na última vez em que estive com ele, antes de se aposentar, após uma conversa (corte de cabelo) muito demorada, na saída eu lhe disse, lembrando uma música de Gonzaguinha: 

- “E a vida o que é? Diga lá meu irmão…”. 

Ele sorriu um sorriso delicado, talvez triste e em voz baixa, como se meditasse, disse: 
             
- Não sei. 

Em seguida levantou os olhos, sem levantar a cabeça e, sacudindo todo o corpo, juntando as mãos em um gesto de oração, me disse: 
            
- Ai meu Deus! Que pergunta difícil!!!

Voltando as costas para mim e olhando-se no espelho, falou como se pensasse alto:
             
- A vida é algo que recebemos sem pedir. Que nem sempre nos dá o direito de escolha e nos obriga a viver toda a sorte de experiências e incompreensões. Mesmo assim, com o tempo, gostamos tanto dela que temos medo de ir embora. 

Enquanto ele se admirava no espelho e alisava sua sobrancelha, repassei em minha memória as suas palavras e, lentamente, fechei a cortina, deixando-o em uma semiescuridão. Não o veria mais.